“Um pé-vermelho nas pegadas de Machado de Assis”

A publicação do livro Siri na Lata (Realejo, 2015) que reúne uma seleção de crônicas publicadas em jornal motivou esta entrevisda dada a Anísio Homem, publicada no Jornal de Santa Felicidade, impresso, na edição 314, de outubro/2015. Abaixo segue o texto da entrevista na íntegra, uma vez que no jornal, por questão de espaço, foi editada. A foto do autor foi feita por Rodrigo Savazoni no Mercado Público de Santos; a capa do livro foi editada por Antonio C S Almeida a partir de detalhe de gravura de Fabrício Lopez e o livro foi publicado pela Realejo Livros & Edições em 2015 com prêmio de publicação da Prefeitura Municipal de Santos/Secretaria de Cultura/Facult.

Entrevista no Jornal de Santa Felicidade

Depois do livro de poemas “Pirão de Sereia”, agora você está lançando um livro de crônicas chamado de “Siri na Lata”. Como te surgiram títulos tão peculiares? 

– O gatilho motivador inicial da ideia foram os editais de fomento, da Prefeitura de Santos, que valoriza o vínculo local como critério para premiação. Sou avesso a bairrismos, porém pensei: “por que não?” E concebi projetos que respondessem a esse quesito, sem, no entanto, perder o tom do meu trabalho. Assim, ao ganhar o prêmio para publicar um livro de poemas que tematizassem a vida no litoral, tal como está na parte inicial do “Pirão de Sereia”, “Costa a Costa” (refiro-me às áreas litorâneas), resolvi transcender a ideia inicial e repensar o projeto. Assim, em vez de ter um livro com o título “Costa a Costa” preferi repensar toda a minha escrita poética e reuni-la num só volume com uma reflexão sobre essa prática. Foi então que associei a vida litorânea com a sereia que tenta seduzir Homero na Odisseia, a sereia como uma espécie de musa ou antimusa poética que acaba roída pelo poeta, daí a síntese de, em vez de comer um pirão de peixe, coisa comum aos mortais, preferi um cardápio digamos mais exótico e afinado com a poesia, resultando o prato num “Pirão de Sereia”… que é muito mais poético e coisa que ninguém come, ou seja, atingi uma espécie de absoluto negativo da poesia, um gozo absoluto. Quanto ao título seguinte, “Siri na Lata”, pensei-o pelo mesmo motivo inicial, de vinculá-lo à vida no litoral e ao mesmo tempo expressar o sentido da prática. Desde que vivi em Floripa e lá e outras cidades próximas como São Francisco, Navegantes, Itajaí, e também aqui no litoral santista, ouvi conversas de pescadores, essa expressão colou na mente e finalmente se associou à prática da escrita semanal em jornal, contra o tempo histórico, no calor da hora.

Você explica que essas crônicas foram escritas “no calor da hora”, por isso o título de “Siri na Lata”, que pelo que entendi significaria essas tensões de comentar acontecimentos, fatos, circunstâncias, ainda muito vivas e esperneantes. Como foi fazer isso semanalmente?

– Foi um desafio e que durou sete anos… sete anos de pastoreio de ovelhas negras, de ter que pensar temas, fazer sínteses, sem cair no banal, sem perder o tom de crítica indagativa que move meu trabalho. Não digo que consegui, porém foram meus objetivos, motivado a não desperdiçar a oportunidade de exercer a escrita de forma que não caísse na amenidade e que pudesse depois ser reunida em livro. Por isso li jornais, acompanhei o noticiário, para buscar a minha síntese do momento histórico, porém buscando não cair no lugar comum da crônica política e sempre pensando como escritor, sem regras. Em alguns momentos fiz sequências de assuntos, tirados de viagem, em outros alternei leituras de livros ou de filmes vistos, procurando fazer da coluna um registro da experiência de vida ao longo de um tempo, sem me ater ao mercado por exemplo, mas abordando apenas assuntos que me entusiasmassem, indo de um poeta interessante que ninguém conhece numa semana ao mais podre da política na outra semana.

As crônicas selecionadas abrangem várias temáticas que na aparência parecem coisas de universos sociais e culturais diferentes, como elas se conciliam dentro do escritor, do sujeito, Ademir Demarchi?

– Tenho norteado minha prática pela experimentação, pela curiosidade, transformando isso numa espécie de competência escritural. Daí que não temo assuntos nem textos, tendo exercitado ao longo da vida a escrita de poemas, ensaios, contos, crônicas e banais ofícios… A prática poética, como pensamento, um agir pensando a contrapelo, foi o que me deu um tom mais acertado e crítico, porém estou numa fase de transição, passando por outras experiências de escrita, sem necessariamente deixar de escrever poemas, afinal tenho já material para dois novos livros, além de outros, como um de Crônicas Peruanas, traduzido de Ricardo Palma, dois de contos em finalização e pelo menos um de ensaios. O que une essas formas distintas é o espírito indagativo, de insatisfação com a vida tal como ela está organizada, certo de que o melhor do humano é o sentir e o pensar, ainda que ele contradiga isso o tempo todo acreditando que é matar…  Se tiver que fazer algo que me desagrade, como enfrentar uma fila de banco, um consultório de médico, andar de ônibus ou qualquer outra coisa, mudo imediatamente a atitude de desagrado e passo a observar o que vou fazer e fico atento para escrever minhas impressões disso, aproveitando a oportunidade de sair da rotina repetitiva do trabalho ou da vida mesma. Por isso a palavra que melhor define o que faço é “escritor”, sem que ela tenha qualquer sentido de valor mas apenas de prática, ou seja, alguém que escreve, escreve em cadernos, no computador, em jornal, em livros, como uma forma de leitura do mundo, num espelhamento da leitura feita nos livros, num dos milhares da minha biblioteca.

Não é incomum a participação de escritores na imprensa brasileira através de crônicas periódicas. É algo que vem de Machado de Assis, que teve por anos uma famosa coluna de crônicas chamada de “A semana”. Para ficarmos em dois outros exemplos ilustres: Drummond, que era poeta, fez isso; Nelson Rodrigues, que era dramaturgo, também escreveu crônicas, a maioria delas futebolísticas. Você se sente parte dessa tradição? Na sua opinião, a imprensa hoje abre espaço para o escritor cronista? 

– Sim, minha inspiração maior é o espírito irônico de Machado de Assis que nos ensinou que não dá para olhar para essa sociedade escravocrata, que perdura até hoje, e ficar indiferente escrevendo amenidades, ainda que seja para a meia-dúzia de alfabetizados deste país de analfabetos (75 % da população, sendo que dos outros 25% nem 5% devem ler com regularidade). Gosto do Drummond, porém menos que Nelson Rodrigues, do qual prezo o senso de humor, mas não dou a mínima para futebol, muito menos para crônica e se escrevi uma, uma apenas, foi para tratar de um famoso jogador que caiu em desgraça, o Barbosa, que morreu culpado em Praia Grande, próximo a Santos, por ter, como goleiro, perdido um gol na Copa de 1950 em que o Brasil engoliu um frango contra o Uruguai.  Sim, a imprensa praticamente se tornou um lugar de cronistas e muitos escritores estão escrevendo. É uma atividade ótima para a profissão pois é um exercício que obriga a pensar e a escrever, a atingir um resultado em um número limitado de palavras.

Seu livro mais recente antes deste “Siri na Lata” foi a antologia “101 Poetas do Paraná”. Como você conseguiu passar de cem?

– Olha, vou te dizer uma coisa, no Paraná já há mais poeta do que pinheiro… Ou melhor, mais gralha do que pinheiro… Tive pouco tempo, poucos meses, para ler mais de cem escritores e uma média de 5 livros de cada um, ou seja, mais de quinhentos livros, imagine a dificuldade, conseguir ter acesso a toda essa massa de informação e morando em Santos, afinal duvido que um curitibano conseguisse imparcialidade para tanto. Ninguém pensa nisso, os que resmungaram por não estar nela só pensaram no umbigo dos seus um ou dois livros. Ninguém pensa que no Paraná não há antologias como essa, a não ser uma outra, a “Passagens”, que foi eu mesmo que fiz focada numa geração, num recorte menor. Fora essas, ficamos em antologias de grupos, como a cândida “Um século de poesia – Poetisas do Paraná” ou festivas como a “Sala 17”, a “Sangra: Cio” ou a “Feiticeiro inventor”, todas já com seus balzaquianos trinta anos de idade… e não quis fazer mais uma antologia do mesmo, ou seja, dos já conhecidos, afirmados e repisados. Assim preferi fazer recortes mais provocativos, colocar poetas que ninguém considera lado a lado dos que estão se transformando em estátua de praça. Preferi arriscar em muitos jovens e chegar até às imberbes do contemporâneo século XXI. Mesmo que muitos desapareçam e nada mais façam, esses textos ficarão como registro eficiente, no mínimo como uma leitura pessoal criteriosa, deste mundo atravessado pela pasteurização de tudo.

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Óscar Limache dá entrevista sobre as traduções de brasileiros no Peru

http://www.dedomedio.com/arte/abriendo-puentes-literarios/

ABRIENDO PUENTES LITERARIOS

ENTREVISTA AL POETA Y TRADUCTOR ÓSCAR LIMACHE

Existen autores valiosos que merecen ser leídos en distintas partes del mundo. Sin embargo, muchas veces la barrera del idioma no lo permite. Óscar Limache, reconocido poeta y traductor peruano, se ha planteado cambiar este panorama en esta parte del mundo. Él quiere abrir un puente literario entre nuestro país y nuestro vecino brasileño, y hacerlo también luego con muchos otros países. Gracias a un proyecto suyo, que promueve la difusión de poemarios y libros de pensamientos, bajo el sello de Amotape Libros, podemos esperar que pronto se logre una mayor difusión de nuestra invaluable literatura en el extranjero, así como que aquí podamos empezar a leer las obras de autores de habla portuguesa que, de no ser por la ayuda de Limache, no podríamos leerlos, impedidos por el idioma.

¿Cómo nace el Proyecto Tabatinga de Traducción Literaria, del que eres fundador?

Viendo en mi primer viaje a Brasil que no había en sus librerías autores peruanos, y encontrando muchos autores brasileños de calidad que no habían sido editados al castellano, vi la necesidad de traducir algunos de esos autores, invitando luego a mis amigos editores a que publicaran esas primeras traducciones. Para el 2006 nació la idea de formar un grupo de lectores peruanos que tradujeran a escritores brasileños. En sucesivos viajes a Brasil contacté con algunos brasileños para que tradujeran autores peruanos al portugués. Recién en el 2010, cuando conocí a los brasileños Ademir Demarchi y a Alessandro Atanes, este proyecto se llegó a cimentar. El objetivo fue formar un puente entre Brasil y Perú, a través de personas interesadas en traducir ambas literaturas.

libros

Colección Aiapaec de poesía, de Amotape Editores. Vuelo de identidad es un libro de poesía de Óscar Limache, que el brasileño Alessandro Atanes ha traducido al portugués, gracias al Proyecto Tabatinga.

 

¿Qué autores peruanos se han traducido al portugués?

Ellos han traducido a Arguedas, a Javier Heraud, Victoria Guerrero, Ricardo Palma y escritos míos. Éste es un proyecto de acercamiento a la literatura valiosa que no ha tenido la oportunidad de ser traducida. Ya no es un proyecto individual; ahora somos una docena de peruanos y ocho brasileños que trabajamos en ambos lados de la frontera, traduciendo, difundiendo y publicando. Yo estudié un profesorado en inglés, pero no me provocó nunca traducir algo en ese idioma porque, prácticamente, apenas sale una obra en inglés se traduce a varios idiomas, entre ellos el español. Cuando descubrí estos libros, me propuse aprender portugués de forma autodidacta. Luego formalmente estudié en el Centro Cultural Brasil Perú, pero solo para precisar algunas cosas. Todo lo demás lo hemos aprendido todos los miembros del grupo, leyendo y consultando diccionarios.

 

Pero tienes el apoyo de los autores brasileros

Sí, la ventaja es que, ahora que ya que tenemos esta contraparte brasileña, la mínima duda al traducir se la consultamos, y a su vez nosotros los ayudamos a ellos. Por ejemplo, Ademir Demarchi estaba traduciendo Tradiciones peruanas de Ricardo Palma, pero no entendía algunas cosas entonces se las aclaramos: “Éste es un limeñismo, un uso antiguo, un refrán”. Así el proyecto funciona en ambas direcciones.

 

El-reverso-de-las-cosas

Mínimas extraídas del libro de pensamientos El reverso de las cosas de Carlos Drummond de Andrade, traducido por Óscar Limache. Humildemente, Drummond las llamó así, por ser parecidas a las Máximas pero “sin llegar a alcanzar la sabiduría de ellas“, aunque de cualquier forma son resultado de la vida.

 

¿Qué es lo más interesante del trabajo de un traductor literario?

Lo más interesante no es el dinero, porque no lo hay; salvo que se trate de un proyecto. Lo más interesante es que, en otros casos, puede haber cosas que no entiendas, pero te las salteas porque finalmente comprendes el contexto -si manejas otras lenguas, te debe haber pasado al leer una novela, un ensayo o poesía- pero traducir implica entender cada palabra, cada matiz. Tienes un compromiso con tus lectores de haber entendido cabalmente la obra. Qué significa una palabra y cuáles son sus alternativas. De esa manera descubrí en el camino que la traducción es el grado máximo de la lectura, pues es la más atenta que puedes hacer y requiere investigación, tiempo y mucho esfuerzo. Eso es lo que más me gusta; poder entender un texto cabalmente y luego repensarlo en mi propio idioma. Es un gran reto, a veces es frustrante si no encuentras la palabra precisa, para no tener que apelar al recurso de la nota explicativa.

 

¿Y éste trabajo influye en tu propia creación literaria?

Evidentemente. Por ejemplo, ahora que celebramos el aniversario de Cortázar, la obra del autor deRayuela no fue la misma luego de que él se dedicara a traducir todos los cuentos de Poe. Nadie queda indiferente antes eso. Si tú empiezas a traducir a un autor, necesariamente tienes que entender cuáles son los mecanismos con los que éste construye sus textos. Cuando uno es escritor, va profundizando su trabajo conforme va leyendo a más autores. Entonces, si con una lectura superficial de los poetas tu obra cambia, imagínate lo que pasaría con una lectura a profundidad, como la de un traductor. Actualmente, sigo escribiendo mi propia obra. Alguien tendría que ver cómo ha variado mi poesía luego de mi trabajo de traductor. Pero de que ha cambiado, lo ha hecho; ha ampliado mis horizontes.

 

Me llamó la atención el juego de palabras usado en este poema el libro de Paulo de Toledo, 51 mendicantos, ¿qué puedes contarnos de esta obra?

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Extraído de 51 mendicantos, de Paulo de Toledo.

 

Ese libro fue todo un reto para mí. No sabía cómo traducir tanto juego de palabras, tanta intertextualidad sin poner notas explicativas. Lo que ocurre es que en el español tenemos la posibilidad de tener sílabas trabadas con consonantes, como por ejemplo “fútbol”. En cambio en el portugués eso es imposible; hay que meterle una vocal. Sale entonces “futebol”. Algo así como nosotros en vez de decir “watchman” decimos “wachiman”. Entonces ellos para decir kétchup tienen que introducir vocales; realmente pronuncian “ketechupe”. Cuando les consulto, porque no sabía si lo estaba haciendo bien, me dicen que sí se escribe “ketechupe” y evidentemente hay un juego de palabras referido a la felación.

 

¿Tienes en mente editar algún libro propio?

Para los libros propios me tomo todo el tiempo del mundo. Estoy escribiendo cuatro libros paralelamente en este momento, pero están avanzando a su velocidad. No me apuro. Creo que lo peor que le puede pasar a un poeta, y desgraciadamente muchos lo hacen, es sacar libros como salchichas. Estas cosas vienen cuando tienen que venir. Los libros están avanzando; pero publicaciones nuevas por el momento, no.

 

¿Traducciones?

Sí, por supuesto. No sabes la calidad de poesía que hay en Brasil que es simplemente desconocida al español. Ahora estamos tratando de publicar también en otros lugares de American Latina. Aún está por desarrollarse, pero esa es la intención. Pues sería un desperdicio de tiempo tener un traductor en cada país, cuando puede una misma traducción llevarse a varios países. Tenemos pensado traducir nuevos autores e incluso nuevas lenguas, como las nativas del Perú, que falta difundirlas. Como te habrás dado cuenta, Amotape Libros ha apuntado a un nicho que no está ocupado aún: el de la poesía traducida y en edición bilingüe muy cuidada.*

 

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Extraídos de 51 mendicantos. Para Óscar, el libro que tiene como protagonista a un mendigo es “una especie de radiografía de Brasil actual”, desde el punto de vista del mendigo, claro.
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Travestimentos eletivos

Fantasias Eletivas Schroedercopi caracopi tesecopi 7 letras

“Nada escapa ao controle dos recepcionistas de hotéis. Eles sabem exatamente o que você vai fazer, conhecem seu tipo, sabem o quanto você é idiota, que tipo de turismo você veio fazer, pois todo turismo tem um fim, e eles são o meio”. Esse trecho é do novo romance de Carlos Henrique Schroeder, “As fantasias eletivas”, que se passa num hotel de Camboriú. Cidade balneária quase fantasma fora das temporadas de verão, ela, quando o sol arde, triplica sua população com gente vinda do interior do Paraná e do Rio Grande do Sul, do Paraguai e da Argentina, mas também de muitos recantos de desavisados atraídos pelas agências de turismo que vendem essa cidade catarinense como “miniatura da cidade maravilhosa”. Não à toa, pois ela copia o Rio com sua também Avenida Atlântica, um Cristo num morro, um bondinho e a facilidade do acesso tanto a frutos do mar quanto a churrasco em apenas 50 km2 de área banhada pelo mar. Tendo trabalhado num hotel nessa cidade, Schroeder conheceu por dentro a rotina de entra e sai de estranhos e suas fantasias de diversão e passagem do tempo longe das amarras de suas moradias. Essa população, porém, não habita o romance, que é centrado justamente no recepcionista do hotel, que a tudo vê e percebe em sua solidão e seus problemas existenciais e de relacionamento. Em seu entorno outros funcionários agem à vontade de forma mal disfarçada atendendo os clientes em pedidos de serviços que não são encontráveis no cardápio normal. Engolfado no tédio da baixa temporada, esse porteiro da noite acaba conhecendo um travesti argentino que o assedia para que ofereça seu álbum de fotos aos clientes, de modo que possa fazer seu michê. A relação entre ambos começa conflituosa, uma vez que o porteiro do hotel, por questões morais, não tem interesse nesse tipo de serviço. O travesti insiste e um diálogo vai se tecendo entre esses dois notívagos e eis que sob as plumas e os paetês descobrimos a sugerida “fantasia eletiva” do livro: o michê é Copi, um escritor argentino que tenta sobreviver como um travesti de si mesmo nessa Camboriú de fim de carreira. É possível dizer isso porque, na verdade, Copi se notabilizou em Paris escrevendo comédias para o teatro e romances impagáveis povoados de travestis com os quais acontece de tudo, desde desaparecer, morrer e reaparecer, trocar várias vezes de sexo, até conviver com animais e coisas com a naturalidade possível da suspensão total do sentido de real, como um sonho latino-americano. Copi é pouquíssimo conhecido no Brasil. Dele há apenas 3 peças publicadas num volume da editora 7Letras, na Coleção Dramaturgia (2007) – “Eva Perón”; “Loretta Strong”; e “A geladeira”, além de uma tese de doutoramento, de Renata Pimentel, publicada pela Editora Confraria do Vento (2011) – “Copi – transgressão e escrita transformista”. Um dos melhores livros, porém, aqui não chegou. Trata-se do romance “Baile das loucas”, “de travestis, porque me divirto criando situações entre eles”, disse Copi que pretendeu escrever um romance policial em que há cópias de Marilyn Monroe, vários crimes e dois culpados, “porém nada de polícia (é algo que não suporto nos romances policiais) e portanto, tampouco castigo”, diz Copi. Schroeder, tendo Copi como sua “fantasia eletiva”, recria à vontade um livro de “coisas” dele, assim como de poemas, transformando o escritor em personagem, jogando com os travestimentos que a escrita ficcional permite quando se entra pela biblioteca e se passa a habitá-la como um hotel povoado de tipos estranhos, tudo para que todo Copi que se apresente seja pouco. [ademir demarchi]

Copi

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Tróiades remix

Tróiades remix

Ademir Demarchi

O ser humano tem uma notável capacidade alienante de fantasiar mundos maravilhosos e utópicos sentado sobre ruínas, que não vê, vindo daí o papel fundamental de todo artista, escritor, filósofo que não se enrede na fantasia do entretenimento: expor essas ruínas e a face nada gloriosa desse humano que, transparecendo um sorriso, mostra em verdade uma máscara. A propósito disso cabe transcrever um fragmento de um aforismo de Walter Benjamin, reordenado em poema: “Um anjo/ tenta se afastar daquilo que olha/ esbulhado boquiaberto/ e de amplas asas (…) arrastado ao futuro/ ele vai de costas/ e a pilha de ruínas à sua frente/ alcança o céu”. Esse aforisma, agora poema, está no “poema-site” “Tróiades – remix para o próximo milênio” (http://www.troiades.com.br/), criado pelo poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores justamente com a motivação de expor a agonia muda dos derrotados de todos os tempos, mas que chega até nossos dias, alegorizados em poemas montados a partir de fragmentos de tragédias antigas como Hécuba e Tróiades, de Eurípedes e Troades, de Sêneca. A alegoria sugere o espaço-tempo de Troia a Canudos mas a deixa fica em aberto para a imaginação: pode passar por índios, seringueiros, pelo Carandiru e até mesmo chegar a esses que assistimos todos os dias sendo aniquilados nas periferias e agora também nos centros urbanos pelas polícias militares montadas como máquinas de matar no Brasil, cujo livro de Caco Barcellos, Rota 66, é um ótimo diagnóstico de seu funcionamento. Se os vivos são sempre os vencedores, ao poeta é incabível aceitar vitória, por isso o que o movimenta é a recusa e a postura indagativa sobre o funcionamento da história. Daí a potência questionadora e provocativa dessa ação criativa perpetrada por Guilherme Gontijo Flores. Esses fragmentos são associados a fotos de vários tempos escolhidas por sua peculiaridade imagética de expressar uma espécie de eco que, vindo das tragédias gregas de 424 a.C a 64 d.C., atravessa a história da humanidade. São impactantes fotos como a da cidade de Dresden, na Alemanha, bombardeada, arrasada e deserta em 1945; de crianças enforcadas numa árvore na Itália em 1923; de canibais durante a fome na Rússia em 1921; de índios acorrentados escravizados no século XIX ou de índios crow mortos em 1874; do negro Will Brown linchado e cremado em 1919 por ridentes racistas norte-americanos; de uma indefesa escrava presa na Tunísia em 1900 ou de um escravo no Mississipe em 1863; da banalidade das trincheiras russas em que se avizinham com naturalidade terrível soldados vivos e soldados mortos em 1905; ou dos sobreviventes ao massacre de Canudos, em 1897, que se apinham sentados no chão, cercados por soldados e olhando humilhados para uma câmera que fazia o serviço sujo da época de registrar uma prova dos que eram vistos como bárbaros então para a sociedade que pagava o preço daquele aniquilamento e desejava a volúpia da imagem nos jornais. A visita ao site é acompanhada pela execução da música “Genocide — Symphonic Holocaust”, do álbum Blut und Nebel (2005), de Maurizio Bianchi. Trata-se de uma música rascante, que remete ao símbolo mais excruciante do finado século XX, o do extermínio humano em modo industrial, como se a linha de montagem fordista fosse aplicada à desmontagem de corpos humanos para gerar a hiperbólica palavra holocausto.

vá lá:

http://www.troiades.com.br/

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Poetas brasileiros traduzidos na Espanha

Em 2006 publicou-se na Espanha uma antologia de poetas brasileiros, que teve pouca divulgação no Brasil. Eis informe feito pelo escritor Antonio Miranda, relacionando todos os participantes e, em seguida, poemas de Ademir Demarchi lá transcritos:

Antologia de Poesia Brasilena - Espanha - Ademir 2006

ANTOLOGÍA DE POESÍA BRASILEÑA, edición de Jaime B. Rosa. Organización Floriano Martins y José Geraldo Neres.  Muestra gráfica y portada Hélio Rôla. Edición bilingüe  Português – Español.   Valencia, España: Huerga & Fierro editores, 2006.  247 p   13,5×21,5 cm.   Poetas: Lucila Nogueira, Glauco Mattoso, Adriano Espínola, Beth Brait Alvim, Contador Borges, Donizete Galvão, Floriano Martins, Nicolas Behr, Jorge Lúcio de Campos, Vera Lúcia de Oliveira, Rubens Zárate, Ademir Demarchi, Ademir Assunção, Leontino Filho, Marco Lucchesi, Weydson Barros Leal, António Moura, Maria Esther Maciel, Rodrigo Garcia Lopes, José Geraldo Neres, Viviane de Santana Paulo, Alberto Pucheu, Fabrício Carpinejar, Salgado Maranhão, Sérgio Cohn, Rodrigo Petronio, Konrad Zeller, Pedro Cesarino, Mariana lanelli. Traductores: Adalberto Arrunátegui, Alfonso Pena, Aníbal Cristobo, António Alfeca, Benjamin Valdivia, Carlos Osório, Eduardo Langagne, Floriano Martins, Gladis Basagoitia Dazza, Luciana di Leone, Margarito Cuéllar, Marta Spagnuolo, Paulo Octaviano Terra, Reynaldo Jiménez e Tomás Saraví. Ex. bibl. Antonio Miranda.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/parana/ademir_demarchi.html

A seguir poemas de Ademir Demarchi incluídos nessa antologia, en traducción de Antonio Alfeca

O CICLONE DE THÉOPHILE

O ciclone embora Théophile lhe seja surdo
Também ameaça-me os camafeus
Assim mesmo porém o amo
Terrificante e belo a espiralar-me o peito
Em sua sina de profícuo signo
Lar agradável, oásis da pira arte
A anular todas as coisas vis
Apesar das quais a palavra arde

 

EL CICLÓN DE THÉOPHILE

El ciclón aunque Théophile le sea sordo
También me amenaza los camafeos
Así mismo no obstante el amo
Terrorífico y bello para espiralarme el pecho
En su sino de proficuo signo
Hogar agradable, oasis de la pira arte
Para anular todas las cosas viles
A pesar de las cuales la palabra arde

[O NEGRO ESCORPIÃO]

O negro escorpião
lateja sobre o negro jade
Malevitch sobre Malevitch
pureza que não se mescla
mas se imiscui
transpondo o visível
Picada à vista
como um caminho
e a ausência dele
Faz-se um clarão
Faz-se a noite
numa cornucópia de quadros

 

[EL NEGRO ESCORPIÓN]

El negro escorpión
palpita sobre el negro jade
Malevitch sobre Malevitch
pureza que no se mezcla
pero se inmiscuye
transponiendo lo visible
Picadura a la vista
como un camino
y la ausencia de él
Se hace un destello
Se hace la noche
en una cornucopia de cuadros

NIETZSCHE POR UM ÁTIMO

Nietzsche por um átimo
do alto da escarpa mirando as pedras
encobertas pela névoa
mais uma vez desgarrou-se do mundo
e sentiu-se pegureiro de nuvens
pastando no ar do abismo
Tal como ele, o pastor lá embaixo
sentado na grama mas com o olhar
atravessando etéreo seus pequenos animais,
teve deles a visão de serem nuvens,
pequenas nuvens no pasto ôntico ótico

NIETZSCHE POR UN INSTANTE

Nietzsche por un instante
desde lo alto del risco mirando las piedras
cubiertas por la niebla
una vez más se desgajó del mundo
y se sintió apacentador de nubes
pastando en el aire del abismo
Tal como él, el pastor allá abajo
sentado en la grama pero con la mirada
atravesando etéreo sus pequeños animales,
tuvo de ellos la visión de que fueran nubes,
pequeñas nubes en el pasto óntico óptico

 

PRIMEIRA GUERRA BIOLÓGICA

na batalha de kaffa
na rússia do século XIV
os tártaros atacaram a cidade
bem instalada ela resistiu o que pôde
dizimando parte da horda
até que
mudando a tática
com o uso de catapultas
os tártaros lançaram
por cima das muralhas
os cadáveres dos seus soldados
mortos pela peste bubônica

PRIMERA GUERRA BIOLÓGICA

en la batalla de kaffa

en la rusia del siglo XIV

los tártaros habían atacado la ciudad

bien instalada ella resistió lo que pudo

diezmando parte de la horda

hasta que

cambiando de táctica

con el uso de catapultas

los tártaros lanzaron

por encima de las murallas

los cadáveres de sus soldados

muertos por la peste bubónica

 

A MANEIRA NEGRA

a maneira negra, como um portal
de ténue treva represa num dique
a luz oculta, silenciosamente vociferante

abre-se em frestas por onde se filtra
por onde vasa como um seco líquido
por onde grita afinando um urro infinito
até tornar-se lúgubre e envolvente
soando um canto de veludo

LA MANERA NEGRA

la manera negra, como un portal

de tenue tiniebla retiene en un dique

la luz oculta, silenciosamente vociferante

se abre en troneras por donde se filtra

por donde pasa como un seco líquido

por donde grita afinando un rugido infinito

hasta tornarse lúgubre y envolvente

entonando un canto de terciopelo

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Do lúbrico ao sarcasmo

Antonio Miranda, em seu site comenta o livro Os mortos na sala de jantar – leia abaixo

OS  MORTOS NA SALA DE JANTAR

Santos, SP: Realejo Livros & Edições, 2007

Um obra singular, paranomásica no sentido de literalidade, de sua temática que vai do lúbrico ao sarcasmo, que denuncia práticas perversas e relativiza crenças e convicções; escalpela valores em crise e, no sentido cervantino do termo, exemplariza nossa relação com a morte (“o morto é projeção do vivo”), acreditando ser esta  “uma invenção” humana, pois a natureza é indiferente. “Cemitério atemporal”, diz o poeta.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/parana/ademir_demarchi.html

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Babel Poética: a poesia na Era Lula

Reflexão, pelo editor da revista Babel Poética, so­bre a poesia brasileira contemporânea e a experi­ência de edição de um mapeamento dessa poesia sob o tema “Poesia na Era Lula”. Circunscrita ao período de 2000 a 2010, a pesquisa e edição foram elaboradas através de edital de patrocínio organizado pelo Mi­nis­tério da Cultura do Brasil e publi­cadas em seis edições da re­vista Babel Poé­tica, distri­buída nacionalmente com 10 mil exem­plares cada edição.

https://periodicos.ufsc.br/index.php/nelic/article/view/1984-784X.2013v13n20p15

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